Thursday, January 20, 2005

Missão III

Longa foi a espera. Aprendi que a paciência é, de facto, uma virtude inigualável. A minha calma e a minha paciência fazem com que eu seja o melhor, superior e inabalável. Assim permaneci em silêncio e quieto até me cruzar novamente com ela, esse diamante satânico em bruto, de brilho infernal que emana do seu corpo feras negras que morrem no meu olfacto chamando-me baixinho. Desta vez viu-me bem, olhou-me bem nos olhos, bem fundo e entendeu. Acho que ela entendeu tudo mas não o quis demonstrar. Já percebeu que há um anjo da guarda na vida dela, por isso se voltou para me lançar um último olhar antes de desaparecer esvoaçante na esquina. Talvez não saiba ainda que esse anjo é negro, que caiu dos braços do senhor para semear o terror entre os fracos, um infiltrado de Deus nos Infernos do Renegado. Talvez ainda não saiba que também ela tem uma missão.

Sunday, December 19, 2004

Missão II

Olho em volta com atenção...sinto-lhe já o cheiro. Não me enganei nem um pouco porque já a vejo vir ao longe quando de repente, sem que ela se pudesse aperceber, surge um homem por trás dela que lhe arranca a carteira do braço com um esticão e corre até desparecer na noite. Esta era a minha deixa; levantei-me calmamente e segui o mesmo caminho que o miserável. Estava disposto a encontrá-lo, nem que levasse trinta dias. Calcorreei as ruas da cidade deserta na madrugada que jazia na metade; encontrei primeiro a carteitra vazia, depois, numa esquina, os documentos sujos e enlameados. Os salpicos de lama sobre aquela face bela e angélica que via nas fotografias encheram-me de fúria. Já tinha talvez o mais importante para ela, mas não o mais importante para mim. A minha fome pedia mais, a minha sede pedia sangue. Eis que os meus olhos negros o avistam, com mais dois, encostados a um carro. Continuo a caminhar pela sombra, simulando o papel de presa medrosa e fácil. Eles avistaram-me e aproximaram-se imediatamente de mim com a intenção clara de me roubar...mas não tiveram tempo. Os outros dois fugiram, mas eu não os procurava, assim que viram uma das minhas facas silvando no ar e poisando cruelmente na clavícula do ordinário. Ele olhou-me nos olhos e temeu, viu a fúria dos mares que o Diabo ordena, a fome dos cães do inferno que vivem dentro de mim, as serpentes que comem a vulva de todas as prostitutas do mundo, mostrei-lhe a alma e a matéria e ele temeu. "Seu filho de uma vaca!" - sussurrei-lhe - "Chegou a justiça para ti! Chegou o teu dia! Olha-me nos olhos porque quero que eles sejam a última coisa que vês!". Ele abriu os olhos e chorou, durante cinco minutos, como se estivesse a ser lavado por dentro, como uma redenção. Foi o tempo que lhe dei antes de lhe furar a garganta. Fiquei ali, encostado à parede, fumando um cigarros, enquanto ele, deitado no chão, sufocava no seu próprio sangue. Não demorou muito, o miserável; o golpe foi certeiro, na jugular, e rapidamente o sangue deixou de irrigar o cérebro! Fui embora, com o dia quase a nascer e pensando nela. Aquele olhar doce e sombrio que me aquece nos meus sonhos, desde que a vi pela primeira vez. Tenho que descobrir onde mora para lhe devolver as coisas. Acho que posso amá-la, essa peça de mármore brilhante e altiva, como arte, como porcelana, como o cheiro intenso e doce das flores que resistem ao Inverno. Será que ela poderá algum dia amar um Anjo Negro? Talvez não, mas cabe-me a tarefa de impedir que algo de mal lhe aconteça e de castigar todos os que atentarem contra a Deusa do mundo, a filha dos deuses do Amor e do Ódio. Volto para o Refúgio.

Saturday, December 18, 2004

Decapítulo IV

"I decided I wasn't ever going to get married because I never wanted to go through anything like that."
- Jeffrey Dahmer
A única e verdadeira linguagem do amor é o silêncio.
Amanheceu, os primeiros raios de sol penetram atrevidamente o vidro semi-embaciado da janela do meu quarto. Lá fora, a Aurora Dourada vai matizando o céu em tons suaves de azuis entremeados com rosas translúcidos e branco-núvem... (Que outro tipo de branco poderia ser? Branco-pérola? Branco-cru? Branco-sujo? Tendo em conta a poluíção citadina este último até que faria sentido.) Mas esta tergiversação não interessa. Há muito que me abandonaram as acolhedoras Trevas nocturnas, quando apenas me iluminava uma fosforecência espectral do nefasto brilho lívido do luar...
À medida que lá fora, no exterior, se ínicia um novo quotidiano tenho-te aqui ao meu lado, corpo desmembrado, enrolado como uma serpente a dormir entre as silvas e a folhagem... Desumanamente embrulhado, carne esquartejada, cada membro amortalhado num trapo embebido em formol...
É como se este farrapo fosse a placenta dum grotesco ventre materno donde renasces para a morte. Comtemplo-te.
Retalhos do teu corpo inerte, plácido e frio. Poesia envenenada. Uma teia subtil na qual uma aranha dourada se enreda a si própria no seu intrincado enredo.
A tua carne, cada músculo de suave textura, dilacerado com as minhas próprias unhas finas e recurvadas como as garras duma gralha. Sentiste, ainda com ar a entrar-te e a sair pelas narinas o beijo gélido da lâmina do bisturi.
Abriste-me o teu peito.
Mordi o teu coração. Embriaguei-me com o teu licor vital. Banquetei-me com as tuas vísceras.
Degustei-te a cada gota de suor frio. O sabor acre e salgado da tua pele quando a lambi libidinosamente...
As tuas lágrimas ácidas a escorrerem copiosamente, diamantes a serem derramados pela tua face seráfica e angelical... Pequenos cristais de neve que caíam no chão com um som ténue e imperceptível. O teu sofrimento foi demasiado belo para compartilhar com mais alguém. A videocassete será destruída.
E eis que chega esta bela e fria madrugada de Janeiro.
Olho-te e mesmo vendo retalhos do que foste, sei que este mundo não era digno de ti.
Membros estraçalhados e imóveis. Quão belos são. Beijo-os um a um e os meus lábios rubros tingem-se de carmim sanguíneo.
O teu sexo decepado. Beijo-o e... Apetece-me devorá-lo.
Agora o teu corpo desfigurado é como as personagens que residem nos confins do meu inconsciente.
Pergunto-me se me compreenderás algum dia. Sei que te fiz um favor. Nunca ninguém te amará como eu te amo enquanto estou a deglutir a crueza do teu ser.
Nunca ninguém te amaria ou faria semelhante sacrificio por ti com tanto ardor e devoção.

Friday, December 17, 2004

Missão I

A noite está fria, tenho o nariz gelado mas isso não me impede de farejar. Passo por entre as pessoas como se não existisse, como se no meu corpo não houvesse matéria, como se me desintegrasse e me misturasse com o ar, por breves momentos, e sumisse perdido na atmosfera. Consigo sentir o cheiro do sangue que lhes corre nas veias, o cheiro do medo que lhes sai pelos olhos e por todos os poros mesmo quando tentam, desesperadamente, disfarçá-lo. Hoje vou encontrá-la, estou certo disso, ela precisa de mim só que ainda não o sabe. Encontro uma esplanada repleta de gente e é aí que decido sentar-me, sozinho. As pessoas olham-me como se tivesse uma doença, como se estar sozinho fosse uma doença. Julgo que o é, até certo ponto, pelo menos para muitas pessoas. O mundo tem o culto do rebanho, da manada, do cardume, da caça em grupo! Gostamos de ver os animais nas selvas, de longe, porque eles são eles e nós somos humanos cheios de inteligência e racionalismo a subir-nos pelo cu acima! Bahhh! Somos animais, ainda que com o Q.I. inferior, e pronto.

Thursday, December 09, 2004

Missão

Hoje de manhã abri a porta para sair de casa e lá estva ela, do outro lado da estrada, quieta enquanto todos passavam no reboliço da manhã, olhámo-nos durante dois ou três segundos até que ela começou a andar. Não consegui evitar segui-la, não porque fosse bela, ou porque me atraísse, mas porque eu sabia que era ela, a minha Missão caminhava ali à minha frente e eu não podia deixar de segui-la. O vestido branco esvoaçante que eu tinha visto inicialmente foi desaparecendo dando lugar a umas calças de ganga e um blusão laranja. Percebi que o vestido era o sinal que Ele me dava, tive a certeza que ela era a minha Missão. Voltei para trás e deixei-a seguir. Agora sei que posso encontrá-la em qualquer parte e a vida dela será a minha.
Já em casa afio as facas, avizinham-se tempos de loucura, tempos conturbados. Aguardo sentado no sofá acumulando ódio que nasce dentro de mim e eu nem sei de onde vem...porque não é meu. Mas eu sinto-o crescer, crescer, enche-me os olhos até ficarem completamente negros. Olho-me no espelho e já não me vejo. Visto a roupa negra que se confunde com a noite. Guardo religiosamente cada uma das lâminas sagradas e olho a rua pouco iluminada pela janela. Vejo presas e presas que passam alheias ao que está para vir, como gazelas desprotegidas numa qualquer savana africana. Esta noite vou sair.

Monday, December 06, 2004

Decapítulo 13 III

Não importa se é dia ou noite. Se o sol escalda os passeios cinzentos e solitários ou se a chuva gela com os seus beijos húmidos casas, prédios, pessoas.
Passo dias a admirar retratos que me envias, mas vejo-te muito mais nítidamente, assim que fecho os olhos e sonho contigo.
Posso adormecer o corpo cansado no calor envolvente dos cobertores ou cerrar os olhos e prender-te num pesadelo lascivo onde és o meu único objectivo de Amor, Desejo e Loucura que me envenenas a alma e me fazes lutar por corromper a tua. Não posso ver-te ou tocar-te mas posso alucinar e querer-te obsessivamente... De tal forma que me desfazeria num rio de sangue espesso e púrpura, apenas para te servir... "Dellamore, Dellamorte"... Um só acto. Um só sentimento...

Apenas...
Desejava ser a única criatura no mundo inteiro a saber que tu existes.
Rasgava o peito com uma navalha, abria a caixa toráxica e metia-te cá dentro. Pegava numa navalha e estraçalhava o peito, enfiava-te cá dentro e depois fechava-o com pontos, qual autópsia introspectiva.
Cosia o peito e havias de ficar preso dentro de mim até eu morrer.
O meu peito, o teu leito, o meu coração seria a tua almofada.
Respirarias através dos meus pulmões, alimentar-te-ía com a carne dos meus músculos que fortaleces e beberias o meu sangue que te daria diáriamente, como mãe que alimenta a cria.
Quando tivesses sede beberias as lágrimas, que brotam duma fonte de recordações amargas e que enclausuro dentro de mim. Aqueceria-te com o calor do meu peito e agasalhava-te nas dobras do meu coração pisado e combalido.
Viverias em mim até à minha morte. E mesmo depois da morte apodrecerias cá dentro rodeado pelas Trevas do sepulcro e pelas infernais chamas do crematório, onde arderias dentro de mim na morte, como ardeste durante a vida.
Pois, nem os vermes seriam dignos de devorar as nossas carnes unidas nesta comunhão visceral. Apenas seriamos lambidos por libidinosas línguas de fogo escarlate e luciferino...
E tanto que fica por dizer...

Decapítulo 13 II

Procuro algo e não sei o quê. Tento compreender esta busca com cheiro a sagrado que me parece cada vez mais interminável. É o Próprio que me guia, ouço-o sussurrando-me ao ouvido, como um febrilhar doentio que me impele e me condena. Hoje não sei o que fazer. Acordei com uma disposição de cão, danado para passar despercebido, danado para morder alguém! Talvez fique apenas quieto no meu canto à espera Dele. Ouço esta música feroz que passa de metálica para violínica enquanto o Diabo esfrega um olho e sinto que me esperam lá fora. Por vezes tenho rasgos futuristas que fazem pensar se tudo isto não estará já escrito!! Tudo perderia a magia e eu perderia a minha missão para sempre. O dia está cinzento e vou vestir o meu sobretudo negro para sair, estou farto de estar fechado. Esta claustrofobia esmaga-me o cérebro e sinto que preciso de asas. Olho as pessoas que passam por mim...olham-me com medo, afastam-se subtilmente sem conseguirem olhar-me nos olhos. Pergunto-me quem serão, o que fazem...por que vivem...por que causa vivem? Calculo que não sejam nada, pouco importantes...uma insignificância. Pobres diabos. Um dia virá em que terei que expôr a minha Obra ao mundo e nesse dia muitas lágrimas cairão aos pés Dele e nelas Ele poderá banhar-se. Aqueles que não forem meus experimentarão o Terror, os que forem meus viverão. Separe-se o ouro da areia!

Thursday, December 02, 2004

Decapítulo 13 I

A dor arrepiante faz-me rir por dentro. Deixa em brasa as paredes do meu estômago, dá-me força. Aprendi já que o ódio é como um combustível que fumo e procuro digerir cigarro atrás de cigarro, morte atrás de morte. Procuro saciar o âmago do sofrimento provocando mais sofrimento e continuo neste carrocel macabro que não pára de girar. A música não me sai da cabeça, continuo a ouvir a mesma lengalenga. A tempestade de gelo que urge dentro de mim, parece ribombar nas paredes do meu cérebro, deixo que o horror de tudo o que já fiz me invada e me encha de uma satisfação que me faz sorrir quando me vejo. Como sou belo em peles de Adónis assassino. A pele de cordeiro que visto não deixa ver nem um dos dentes do lobo que sou.

Decapítulo 13

A chama que me faz viver é ateada pela dor lancinante que me cauteriza o peito de gelo translúcido e cortante...